segunda-feira, julho 17, 2006

“Estavam num daqueles lugares do mal, onde marés sobem muito, nocturnas, em torvelinho de neblina luminoso… Assim, rara a claridade do dia, e raros o ar seco e o vento, a erguê-los pelas pontas do cabelo.
Mas, sim, talvez ainda pudessem juntos salvar as garças plantadas como estacas todas as manhãs nos aterros e que sempre se afundavam ao entardecer… Indo lá antes do sol se pôr, quem sabe… Quem sabe até o quanto poderia ser salvo enquanto ainda fosse dia no meio das coisas que se afundavam sempre na neblina movediça… (começar pelos lugares mais baixos, pelas margens do rio, sob as pontes, pelos estaleiros dos barcos sobre a areia, pelas primeiras fileiras de prédios, pelos páteos onde desaguam em humidade as janelas baixas e se ouvem matraquear, ainda ao longe, as peças dos jogos sobre os tabuleiros)”
, tomou nota no caderno do costume.
“Tantas coisas em perigo, e nós apenas dois!”, ainda pensou antes de submergir o corpo nos lençóis de água para adormecer.